RUÍNAS ALADAS

Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.



Sábado, Maio 29, 2004

A CATADORA DE CARACÓIS

As paredes velhas, úmidas e cobertas por limo verde. Lá encontram o ambiente perfeito. Corpos lisos de um visgo secretado e brilhante. Uma carapaça guarda... Ela caminha descalça, segurando um saco plástico repleto de folhas de alface. A pele é quase translúcida, os vasos à mostra como labirintos. Olhos que se perdem no espaço e nos sonhos. O mundo é feito de estacas pontudas, venenos escorrem das agulhas. Um fio e um caminho transparente impregnado de ser. Os cabelos se misturam ao foco do desejo, porem negros, não avermelhados. Longos cachos espiralados alcançando o chão. O tempo é um fator desprovido de qualquer valor na infância. Os pseudopés se arrastam e grudam onde bem entende o instinto acéfalo. São criaturas. Os olhos, volto a dizer, se confundem ao corpo contráctil. Repugnância aos desprovidos de sensibilidade dérmica. Ela queria ser um deles, mas, pensando bem, não sabia realmente o que é querer. Só caçava o que estava ao limite de sua ânsia de tornar-se carapaça. Um ciclone. Havia outras criaturas: lesmas impessoais, lagartas famintas, borboletas voadoras e coloridas, formigas vermelhas e socializadas, besouros negros e gordos, mariposas acinzentadas e compridos piolhos de mil pés curtos. Criaturas fantásticas... mas ela queria aquelas, infinitas delas, grudadas, sim, grudadas ao seu corpo quase transparente. Alimentaria todas com sua própria matéria. Queria ser sugada para dentro, dentro, dentro das carapaças hipnóticas. Estaria segura, mesmo que assim... Segura e pulsante. Dentro, dentro do plasma. Célula encarnada no muco. Imagem verde transcendente ao tempo sem mistério. Sua armadura, dura segurança de um caracol gigante de mil partes. Úmido e frio ambiente de paredes de limo. Ela. Somente ela e seus pequenos filhos. Ela e sua concha... Até que o sol a seque no verão de fogo. E seus cachos alcançando o chão...

(L. F. Calaça | 24/05/2004)

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Sexta-feira, Maio 14, 2004

REFLEXO SONÂMBULO

Cheguei aqui caminhando sobre o mar de vidro. Não tenho mais pés, eles são descartáveis, mas descobri que duas crianças não se amam, se refletem. Envolvida por estas ondas partidas, há uma torre sem fim, ereta e triste, como eu. As noites são sempre mais tristes que os dias, não sentimos a luz do farol que nunca existiu. Nem navios para resgatar os homens sem pés. Verdadeiramente, só eu existo em meus sonhos abraçados a mim. Sou uma criança que se reflete e não ama. Lá em cima há um quarto, pintado por uma estátua sem cabeça. Às vezes, vou até lá e me dispo, e durmo, mas estou envolto até o pescoço pelo hábito de um monge estéril. Queria realmente dormir nu, sobre o chão de azulejos xadrez, mas há olhos piscando nas paredes e no céu. Ninguém sabe por onde anda minha cabeça, somente este segredo. É tão alto e transparente que me pergunto se se perdeu comigo. Sei que estou perdido, sem tempo, sem espaço e sem matéria. Como a hera de tinta que se enrama na parede. Um verde desbotado na ausência diurna dos astros, na presença noturna da Ausência. Personificada nesta estátua sem pés nem cabeça. Perdi minha salvação, agora me recolho atrás da flauta que sempre toca, acompanhando o violino. Não há cordas, nem lâminas, nem pescoço, nem pulsos. A Angústia torna-se cega e muda. Preciso saber o que ela pensa de mim, mas só sabe me envolver com este hábito estéril. Tudo está inerte, nem as pombas brancas emitem seus ruídos dos poleiros de acrílico. Não há pombas, nem poleiros, nem torre, nem mar, nem estátua, nem cabeça, nem olhos pintados nas paredes. Há um emaranhado de dormência derramada em páginas infinitas, que se soterram umas às outras nas gavetas de meu corpo. Uma e eterna noite sonâmbula, sem pés olhos ou sentidos, ereto e estéril, durmo sobre os azulejos das paredes. Espaços abertos e vazios sem serem preenchidos. Tudo ou nada, rarefeito. Desfeito o mistério de gritos e sussurros inexistentes. Fitas gravadas no escuro, então não existem imagens gravadas. A pele vazia de toques, hipersensibilidade casta e inútil. Como se algo existisse atrás do espelho, senão o plano reflexo virtual de uma criança. Uma torre envolvida por ondas partidas de vidro. Fragilidade atrás dos cabelos quase curtos e quase longos. Noite como o abismo. Sonambulismo e horas mortas.

(L. F. Calaça | 13/05/2004)

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Domingo, Maio 09, 2004

A VERDADE
(Marquês de Sade)

Qual é essa quimera impotente e estéril
Essa divindade que aos imbecis apregoam
Uma cambada odiosa de padres impostores?
Querem tornar-me num dos seus sectários?
Ó! nunca, juro-o e cumprirei a minha palavra,
Nunca esse bizarro e nojento ídolo,
Esse filho do delírio e do escárnio,
Impressionará minimamente o meu coração.
Contente e orgulhoso do meu epicurismo,
Pretendo expirar no seio do ateísmo.
E que o Deus infame com que pretendem assustar-me
Nunca eu o conceba senão para o blasfemar.
Sim, vã ilusão, a minha alma detesta-te,
E para que te convenças aqui o proclamo.
Gostaria que pudesses viver por um momento
Para gozar o prazer de melhor te insultar.
Qual é, com efeito, esse execrável fantasma,
Esse Deus cagão, esse ser pavoroso
Que não se deixa ver nem dá sinal de vida,
Que o insensato teme e de quem o sábio ri,
Que não fala aos sentidos e que ninguém pode compreender,
Cujo culto selvagem fez derramar entre nós,
Desde sempre, mais sangue que a guerra
Ou a fúria de Témis em mil anos?
Por mais que analise este deifico tratante,
Por mais que o estude, o meu olho filosófico
Não vê neste motivo das vossas religiões
Senão um conjunto impuro de contradições
Que não resiste a um exame sério,
Que podemos insultar, desafiar, ultrajar à vontade.
Fruto do temor, criado pela esperança,
Inconcebível para o nosso espírito,
Tornando-se consoante a mão que o brande
Objecto de terror, de alegria ou de vertigem,
Que o hábil impostor que o anuncia aos humanos
Faz reinar como quer sobre os nossos destinos,
Descrevendo-o ora como mau, ora como bonacheirão,
Ora massacrando-nos ora servindo-nos de pai,
Atribuindo-lhe sempre, segundo as suas paixões,
Os seus costumes, o seu carácter e as suas opiniões,
Quer a mão que perdoa, quer a que nos trespassa.
Ei-lo, esse Deus idiota com que nos engana o padre.
Mas com que direito pretende submeter-me
Ao seu erro aquele que a mentira escraviza?
Necessitarei acaso do Deus de que abjura
A minha razão para aceitar as leis da natureza?
Nela tudo se move, e o seu seio criador
Age continuamente sem a ajuda de um motor.
Que ganharia eu com essa segunda dificuldade?
Demonstrará esse Deus a causa do Universo?
Se cria, foi criado e eis-me de novo incerto
Como antes de recorrer a ele.
Foge, foge para longe, impostura infernal;
Cede, desaparecendo, às leis da natureza:
Ela faz tudo por si própria, tu não passas do vazio
Onde a sua mão nos foi buscar quando nos criou.
Some-te pois, execrável quimera!
Foge para longe, abandona a terra,
Onde não encontrarás senão corações empedernidos
Pela algaraviada mentirosa dos teus míseros amigos!
Quanto a mim, confesso, o ódio que te tenho
É ao mesmo tempo tão certo, tão grande e tão forte
Que seria com prazer, Deus vil, e sem pressas,
Que me masturbaria sobre a tua divindade,
Ou enrabar-te-ia, se a tua frágil existência
Pudesse oferecer um cu à minha incontinência.
Depois arrancar-te-ia com força o coração
Para melhor te compenetrares do meu profundo horror.
Mas seria em vão que se procuraria atingir-te,
A tua essência escapa a quem a quer coagir.
Não podendo esmagar-te, pelo menos entre os mortais,
Gostaria de destruir os teus perigosos altares
E demonstrar àqueles que um Deus ainda cativa
Que esse aborto covarde que a sua fraqueza adora
Não pode pôr termo às paixões.
Ó sagrados movimentos, orgulhosas impressões,
Sede pra sempre objecto das nossas homenagens
As únicas dignas do culto dos verdadeiros sábios,
As únicas que sempre deleitaram os nossos corações
As únicas que a natureza proporciona à nossa felicidade
Cedamos à sua autoridade, e que a sua violência
Subjugando os nossos espíritos sem resistência
Faça dos nossos prazeres leis, impunemente:
O que a sua voz prescreve são os nossos desejos,
Seja qual for a desordem para que nos arraste,
Devemos ceder-lhes sem remorsos e sem dificuldade
E, sem consultar as nossas leis ou costumes,
Entregarmo-nos com ardor a todos os erros
Que pela sua mão a natureza sempre nos ditou.
Nunca respeitemos senão o seu divino murmúrio;
O que em todos os países as nossas leis vãs punem
Foi sempre o que melhor serviu os seu desígnios.
O que parece ao homem uma cruel injustiça,
Não passa do efeito da sua mão corrupta sobre nós,
E quando, por força do hábito, tememos vacilar
Só conseguimos acolhê-la ainda melhor.
Essas doces acções a que chamais crimes,
Esses excessos que os parvos julgam ilegítimos,
São apenas os desvios que lhe agradam,
Os vícios, as tendências que mais aprecia;
O que ela grava em nós é sempre sublime,
Aconselhando o horror, ela designa a vítima:
Golpeêmo-la sem temor e não receemos
Ter cometido uma perversidade, cedendo.
Examinemos o raio nas suas mãos sanguinárias;
Ele fulmina ao acaso, os filhos, os pais,
Os templos, os bordéis, os beatos, os bandidos,
Tudo serve à natureza: precisa de delitos.
Do mesmo modo a servimos ao cometer um crime:
Quanto mais o propagamos, mais ela o adora.
Usemos os direitos poderosos que exerce sobre nós
Entregando-nos sem fim aos gostos mais monstruosos:
Nenhum é proibido pelas suas leis homicidas,
E o incesto, a violação, o roubo, os parricídios,
Os prazeres de Sodoma, os jogos de Safo,
Tudo o que faz mal ao homem ou o mata
É, podeis crer, um meio de lhe agradar.
Destronando os deuses, roubemo-lhes o trovão.
E com esse raio faiscante destruamos tudo
O que nos desagrada neste mundo assustador.
Sobretudo não poupemos nada; que as suas próprias
Atrocidades sirvam de exemplo às nossas piores proezas
Não há nada sagrado: tudo neste universo
Se deve vergar perante os nossos fogosos caprichos.
Quanto mais multiplicarmos, diversificarmos a infâmia,
Mais a sentiremos fortalecida nas nossas almas,
Duplicando, encorajando as nossas cínicas experiências
Conduzindo-nos, dia a dia, passo a passo, à malvadez.
Após os melhores anos, se a sua voz volta a chamar-nos
Regressemos a ela fazendo pouco dos deuses,
O seu cadinho espera-nos para nos recompensar;
O que o seu poder nos tirou, a sua necessidade devolve-nos,
Nela tudo se reproduz, tudo se regenera:
Dos grandes como dos pequenos a puta é a mãe
E aos seus olhos somos todos queridos,
Monstros e malvados ou bons e virtuosos.



(A VERDADE, poema em versos alexandrinos, em rima emparelhada, foi escrita em 1787.)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 9:19 PM Comments:



Sábado, Maio 08, 2004

MONSTRO HÍBRIDO

Mil e uma cabeças. Infinitos olhos.
Um pensamento a enlouquecer os sonhos.
Vermelhos rubis cintilando no escuro,
onde guardo meus delírios e tesouros.

Fusão de míticas figuras encarnadas,
que me transformam em pedra, me devoram,
ou expõem uma charada sem resposta.

Comeram minhas asas inflamadas,
sem cinzas, sem liras, sem desejos.
Aguardo o fatídico mistério que se encerra
numa caixa preta, lacrada, amorfa.

Meu fígado devorado na eternidade,
que consiste na matéria viva e morta
acorrentada num penhasco e sem pés.

Talvez um mito seja a ilusão que me povoa
num cíclico silêncio sem murmúrios.
Sem gritos, sem lamentos, sem memória...
Alma presa se perde e fita a firmamento.

Uma moeda soterrada entre ruínas,
apagada entre lendas e poesia.
Olho meu peito que se desfaz em alvorada.

Eu criei o monstro que me vigia;
só ele lê meus rumores indecisos.
Um dia, talvez, serei finito.

(L. F. Calaça | 07/05/2004)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:17 AM Comments:



Sexta-feira, Maio 07, 2004

O CONVIDADO DE SADE

Amanheço com os olhos em chamas. Permaneço intocado neste caos delirante de loucos. Sob a chuva, sob os gritos e sob contos quase fantásticos. Intocado, enquanto corpos se misturam com as labaredas urticantes e as secreções da terra. Um par de olhos, apenas isto. Um par de olhos a testemunhar um banquete. Jejum de faquir. Contradição para um homem deste século, olhando as histórias francesas de um marquês. Tento imaginar uma justificativa e é esta mesma a resposta: um homem do século XXI. Não um homem, um camundongo. Minha cabeça rolando sob guilhotinas jacobinas. Olhos, e apenas olhos, em chamas, de um voyeur transplantado. Corpos e línguas e sexos. Carnes suínas, roliças e vibrantes, trêmula imagem ficcional de uma noite de insônias. Insônias castas de um cônego sem calças, sem mãos, sem transitividade. Corpos cavernosos repletos de sangue a arrebentar. E um voyeur..., ou este leitor de contos proibidos, cheio de moralismos cristãos de missal. O corpo santo de Cristo nu. A hóstia mordida e o sacro líquido a deslizar pelo canto da boca entreaberta. E as gargalhadas dos demônios lunáticos e psicológicos. Anões incendiários, gigantes estupradores e virgens no torpor de um orgasmo penetrado ao som de órgãos catedrais. Salvem meu corpo, pois minha alma foi devorada pelas criaturas do bestiário repleto de iluminuras. Correntes asfixiam meus pulsos em carne e ossos. Cavalos alados a receber chibatadas com laminas em brasa. E o marquês ressuscitado pós ritos murmurados nos conventos. As logias explicam este delírio, mas não silencia as palavras que se repetem como as batidas de um pêndulo. Acendo velas aos mosaicos de um corpo e de minha mente repleta de ciências humanas e naturais. O banquete acentado nos corpos, sob mãos e joelhos, anatomicamente perfeitos. Um sorriso sorrateiro daquele que possui título impresso nas luxúrias de uma, de milhares de noites. Um sorriso e um piscar de olhos que caminham sob as pinturas de um império santificado pelas luzes do humanismo. Um sacrifício de palavras ao indivíduo, ao ego e ao hedonismo que faz da carne matéria vibrante e desesperada. Sob o gelo, sob a brasa e sob a ponta da adaga. Páginas de um conto, de uma marca regida por um lúcido insano de bodas de ouro com o espasmo. Anoiteço com as névoas devassas sob o signo de Sade. Um corpo nu e santo, sem mãos e transitividade.

(L. F. Calaça | 03/05/2004)


Busto de Marquês do Sade, Man Ray

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:44 AM Comments:



Sábado, Maio 01, 2004

AMANDO-TE INTIMAMENTE

Quando tu tiveres a sós comigo, quero te possuir em meus braços, para poder te mostrar toda a força da minha paixão. Escorregarei minhas mãos por todo teu corpo, e desta maneira vou descobrir os teus mais íntimos pensamentos.
Com meus lábios sedentos de desejo vou poder te sentir, assim como uma abelha que suga incansavelmente o nectar da mais bela das flores. Serei escravo de todos os teus ousados pensamentos, e numa sintonia de amor, prazeres e ardentes desejos, te possuirei por completo e você sentirá minha volúpia por este momento.
Neste instante, seremos um só, envolvidos pelas nossas mais ousadas vontades, acompanhadas por murmúrios de amor e sussuros ofegantes de prazer. E com movimentos que se tornam cada vez mais ardentes farei com que sinta um prazer que nenhum mortal conseguirá descrever, então saberás que teve de mim toda a essência de meu ser, e com minhas últimas forças te direi: eu te amo.

(Alex Ritzmann)

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